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Começar a treinar costuma ser relativamente fácil. A matrícula é feita, os primeiros treinos vêm acompanhados de entusiasmo e a disposição para mudar parece suficiente para reorganizar toda a rotina.

O verdadeiro desafio aparece algumas semanas depois, quando a novidade diminui, os compromissos se acumulam e ir à academia passa a disputar espaço com trabalho, estudos, família e cansaço.

É nesse momento que surge uma pergunta recorrente: quanto tempo é necessário para que treinar deixe de depender tanto da motivação e se transforme em um hábito?

Durante anos, uma resposta ganhou popularidade: 21 dias. A ciência, entretanto, mostra que a formação de hábitos é bem menos previsível do que isso.

quanto tempo leva para criar o hábito de treinar?

quanto tempo leva para criar o hábito de treinar?

Afinal, são necessários 21, 30 ou 66 dias?

Não existe um número mágico.

Um dos estudos mais conhecidos sobre formação de hábitos acompanhou voluntários durante 12 semanas enquanto eles tentavam incorporar um novo comportamento ao cotidiano. O tempo necessário para atingir um alto grau de automaticidade variou enormemente entre os participantes, de 18 a 254 dias. A pesquisa ficou conhecida também pela referência de aproximadamente 66 dias como valor central observado, muito distante da ideia de que três semanas seriam suficientes para todas as pessoas.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reforçou justamente essa conclusão: hábitos relacionados à saúde não seguem um cronograma universal. O tempo necessário depende do comportamento, da pessoa e das circunstâncias em que ele é repetido.

Portanto, se você começou a academia há um mês e ainda precisa se convencer a treinar em determinados dias, isso não significa que algo esteja dando errado.

O hábito ainda está sendo construído.

O que significa transformar o treino em hábito?

Criar um hábito não significa necessariamente acordar todos os dias com vontade de treinar.

Na psicologia comportamental, uma característica importante do hábito é a automaticidade. Com a repetição, determinado contexto passa a funcionar como um gatilho para o comportamento.

No começo, cada etapa exige uma decisão consciente: escolher o horário, separar a roupa, organizar a agenda, sair de casa e chegar à academia.

Quando esse comportamento é repetido de maneira consistente, algumas dessas decisões passam a exigir menos esforço mental.

É quando o treino começa a fazer parte da rotina.

A evidência disponível indica justamente que repetir um comportamento em um contexto relativamente estável favorece esse aumento progressivo da automaticidade.

Motivação começa. Constância mantém.

A motivação tem seu valor. Ela pode ser justamente o impulso necessário para iniciar uma mudança.

O problema está em depender dela todos os dias.

Existem manhãs em que a disposição estará alta e outras em que permanecer no sofá parecerá uma opção muito mais interessante. Se o treino estiver condicionado exclusivamente à vontade daquele momento, manter regularidade se torna mais difícil.

Por isso, construir um hábito envolve transformar o exercício em um compromisso previsto na rotina, e não em uma atividade realizada apenas quando sobra tempo ou disposição.

O American College of Sports Medicine destaca que estratégias de mudança comportamental, supervisão profissional e a escolha de atividades agradáveis podem favorecer a adesão aos programas de exercícios.

Começar com tudo pode ser justamente o problema

Existe um comportamento bastante comum entre novos praticantes: sair do sedentarismo e estabelecer imediatamente a meta de treinar seis ou sete vezes por semana.

No papel, parece comprometimento.

Na vida real, pode ser difícil sustentar.

Uma rotina de exercícios precisa caber na vida da pessoa para conseguir permanecer nela. Estabelecer uma frequência realista, que possa ser repetida semana após semana, tende a ser mais estratégico do que criar uma programação extremamente exigente e abandoná-la pouco tempo depois.

O objetivo inicial não precisa ser fazer o máximo possível.

Precisa ser conseguir voltar.

Repetir no mesmo contexto pode ajudar

Horário, ambiente e sequência de comportamentos podem funcionar como pistas para o cérebro.

Imagine alguém que encerra o expediente, troca de roupa e segue diretamente para a academia todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Quando essa sequência é repetida durante semanas, o contexto começa a ficar associado ao treino.

Algumas estratégias simples podem favorecer esse processo:

  • estabelecer dias específicos para treinar;
  • definir previamente o horário;
  • deixar roupa, tênis e acessórios preparados;
  • encaixar a academia antes ou depois de uma atividade que já acontece diariamente;
  • escolher uma frequência compatível com a rotina;
  • acompanhar a própria regularidade.

Quanto menos decisões forem necessárias para começar, menor tende a ser a barreira entre a intenção e a ação.

Perder um treino destrói o hábito?

Não.

Um dos achados mais interessantes de um estudo publicado no European Journal of Social Psychology, conduzido pela pesquisadora Phillippa Lally e colaboradores, mostrou que perder uma oportunidade isolada de repetir determinado comportamento não compromete de forma significativa o processo de formação do hábito.

Essa informação é importante porque combate a lógica do tudo ou nada.

Perdeu o treino de segunda-feira? Isso não significa que a semana inteira está perdida.

Não conseguiu cumprir toda a programação? Retome na próxima oportunidade.

A constância deve ser observada ao longo do tempo, e não pela perfeição de uma única semana.

Na prática, criar o hábito de treinar significa aprender a voltar, mesmo depois de um imprevisto. É essa capacidade de retomar que fortalece a regularidade ao longo dos meses.

Quando os resultados começam a ajudar na construção do hábito

Existe ainda outro elemento importante: perceber progresso.

Nas primeiras semanas, as mudanças nem sempre aparecem no espelho. Mas outros sinais podem surgir antes.

Mais disposição, melhora do condicionamento, aumento gradual das cargas, melhor execução dos exercícios e facilidade para realizar atividades do cotidiano são exemplos de evolução que também merecem atenção.

Reconhecer essas pequenas conquistas ajuda a transformar um objetivo distante em uma sequência de progressos concretos.

E quanto exercício devemos fazer?

Criar o hábito é uma questão comportamental. Já a quantidade de exercício necessária para promover saúde segue recomendações específicas.

Para adultos, a Organização Mundial da Saúde recomenda entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física aeróbica de intensidade moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular envolvendo os principais grupos musculares em pelo menos dois dias por semana.

Isso não significa que uma pessoa sedentária precise atingir imediatamente todo esse volume.

O processo pode ser progressivo, especialmente para quem está começando ou retomando a atividade física.

Então, quanto tempo leva para gostar de treinar?

Essa é uma pergunta diferente de quanto tempo leva para criar um hábito.

É possível construir uma rotina antes mesmo de desenvolver grande prazer pelo exercício. Também é possível gostar de treinar desde o primeiro dia e, ainda assim, ter dificuldade para manter frequência.

Prazer, motivação e hábito se relacionam, mas não são exatamente a mesma coisa.

Encontrar modalidades e exercícios agradáveis, sentir-se confortável no ambiente e perceber evolução podem tornar a experiência mais positiva e favorecer a adesão. A literatura sobre prescrição de exercícios também reconhece a importância de atividades prazerosas para a manutenção da prática.

O hábito não nasce em 21 dias. Ele é construído treino após treino.

Talvez a principal contribuição da ciência sobre esse assunto seja justamente retirar a pressão do calendário.

Para algumas pessoas, determinado comportamento pode se tornar automático relativamente rápido. Para outras, serão necessários vários meses.

Mais importante do que contar quantos dias se passaram é observar quantas vezes o comportamento conseguiu ser repetido.

Treinar com regularidade, estabelecer horários possíveis, reduzir obstáculos e retornar depois dos imprevistos são atitudes que transformam uma intenção em comportamento e, com o tempo, um comportamento em hábito.

Na Engenharia do Corpo, cada treino pode representar mais do que uma sessão de exercícios. Pode ser mais uma repetição de uma escolha que, pouco a pouco, passa a fazer parte da sua vida.

Porque constância não significa nunca falhar.

Significa continuar.

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