Durante o Agosto Dourado, mês dedicado à promoção, à proteção e ao incentivo ao aleitamento materno, é importante abrir espaço não apenas para falar sobre os benefícios da amamentação, mas também para esclarecer as dúvidas que surgem na rotina das mães.
Entre elas, uma das mais comuns é: o que comer para aumentar a produção de leite?
Canjica, aveia, cerveja preta, leite, água em grandes quantidades, chás e receitas tradicionais costumam aparecer entre as recomendações. Muitas dessas orientações atravessam gerações e são compartilhadas com a intenção de ajudar. Mas será que algum desses alimentos realmente faz a mulher produzir mais leite?
A resposta é mais simples e, ao mesmo tempo, mais importante do que parece:
não existe um alimento específico que, sozinho, seja capaz de aumentar significativamente a produção de leite em todas as mulheres.
A alimentação materna é fundamental durante a amamentação, mas sua função não é atuar como uma espécie de botão que aumenta imediatamente a quantidade de leite. Uma alimentação suficiente, variada e equilibrada ajuda a fornecer a energia e os nutrientes necessários para sustentar a saúde da mãe e as demandas da lactação.
A produção de leite, entretanto, depende principalmente da frequência e da eficiência com que ele é retirado das mamas.

Quais alimentos aumentam a produção de leite? Entenda o que é mito e o que realmente funciona
Afinal, existe algum alimento que aumenta a produção de leite?
Até o momento, não há evidências suficientes para afirmar que um alimento de consumo habitual seja capaz de aumentar, de maneira consistente, a produção de leite materno.
Algumas plantas, alimentos, medicamentos e suplementos são chamados de galactagogos, termo utilizado para substâncias que supostamente estimulariam a lactação.
O problema é que, mesmo quando existem estudos sobre determinados produtos, os resultados podem variar e a qualidade das evidências nem sempre permite recomendar seu uso de maneira generalizada.
Isso significa que procurar um alimento milagroso pode desviar a atenção do que realmente precisa ser avaliado quando existe suspeita de baixa produção.
A nutricionista Jordana Lessa explica:
Quando uma mãe acredita que está produzindo pouco leite, a primeira pergunta não deveria ser "qual alimento eu posso comer?", mas sim "por que essa produção pode estar baixa?". A alimentação é importante, mas não substitui o manejo adequado da amamentação.
Antes de acrescentar chás, suplementos ou receitas à alimentação, é necessário investigar se o bebê está mamando adequadamente, se a pega está correta, se existe retirada suficiente de leite e se algum outro fator está interferindo no processo.
O que realmente estimula a produção de leite?
A lactação funciona principalmente por um mecanismo de oferta e demanda.
Quando o bebê mama com frequência e consegue retirar o leite de maneira eficiente, o organismo recebe o estímulo para continuar produzindo. Quando a mãe está longe do bebê, a ordenha também pode ajudar a manter esse estímulo.
Em outras palavras, quanto mais leite é retirado adequadamente, maior tende a ser a sinalização para que o corpo continue produzindo.
O Ministério da Saúde também reforça que a produção está relacionada ao esvaziamento das mamas: quanto mais o bebê mama ou quanto mais leite é retirado manualmente ou com o auxílio de uma bomba, maior é o estímulo recebido pelo organismo.
Diante de uma suspeita de baixa produção, portanto, é importante observar fatores como:
- frequência das mamadas;
- pega e posicionamento do bebê;
- eficiência da sucção;
- retirada adequada do leite;
- intervalos muito longos entre as mamadas;
- uso de complemento e seu impacto sobre a frequência das mamadas;
- necessidade e frequência das ordenhas;
- condições de saúde da mãe e do bebê.
Em alguns casos, a percepção de pouco leite não corresponde necessariamente a uma baixa produção real.
Mamas mais macias, por exemplo, não significam automaticamente que o leite esteja acabando. Com o passar do tempo, o organismo pode se adaptar à demanda do bebê, e aquela sensação de mamas constantemente cheias tende a mudar.
Canjica aumenta a produção de leite?
Não existem evidências de que a canjica, por si só, aumente a quantidade de leite produzido.
A tradição de oferecer esse alimento durante o período de amamentação provavelmente está relacionada ao seu valor energético e à associação cultural com o pós-parto.
A canjica pode fazer parte da alimentação da mulher que amamenta, assim como outros alimentos de que ela goste e que sejam compatíveis com sua rotina. O cuidado está em não atribuir a ela uma propriedade específica que não foi comprovada.
Também é importante considerar a composição da receita. Dependendo da preparação, pode haver quantidades elevadas de açúcar, leite condensado e outros ingredientes.
Isso não significa que a canjica esteja proibida. Ela apenas não precisa ser consumida com a expectativa de funcionar como um estimulante da produção de leite.
O próprio Ministério da Saúde classifica como mito a ideia de que canjica, água inglesa ou determinados alimentos sejam capazes de aumentar a produção.
Aveia aumenta a produção de leite?
A aveia é um alimento nutritivo e pode ser uma ótima opção durante a amamentação.
Ela fornece carboidratos, fibras e micronutrientes, além de ser bastante versátil. Pode ser consumida com frutas e iogurtes ou utilizada em mingaus, vitaminas, bolos e preparações salgadas.
Mas é necessário fazer uma distinção importante:
a aveia pode contribuir para uma alimentação equilibrada, mas isso não significa que aumente diretamente a produção de leite.
Sua popularidade como alimento lactogênico é maior do que a evidência científica disponível sobre esse possível efeito.
Se a mãe gosta de aveia, pode continuar consumindo normalmente. No entanto, não é necessário ingerir grandes quantidades nem incluí-la obrigatoriamente na alimentação com a expectativa de produzir mais leite.
Cerveja preta aumenta a produção de leite?
Esse é um mito que merece atenção especial.
A ideia de que cerveja preta aumenta a produção de leite é antiga, mas bebidas alcoólicas não devem ser utilizadas como estratégia para estimular a lactação.
Além de não haver comprovação consistente desse benefício, o álcool passa para o leite materno. O consumo excessivo também pode interferir na ejeção e, ao longo do tempo, contribuir para a diminuição da produção, além de trazer riscos para o bebê.
A opção mais segura durante a amamentação é não consumir álcool. Caso haja consumo, a mulher deve receber orientação profissional adequada, considerando a quantidade ingerida e o intervalo até a próxima mamada.
Portanto, cerveja preta não é uma estratégia nutricional para aumentar a produção de leite.
Beber muita água faz produzir mais leite?
A hidratação é importante durante a amamentação, mas beber água em excesso não significa produzir mais leite.
A mulher que amamenta pode perceber um aumento da sede ao longo do dia. Por isso, uma estratégia simples é manter água disponível e beber regularmente, respeitando os sinais do organismo.
A atenção à hidratação pode ser ainda maior em dias quentes, durante exercícios físicos ou em situações que aumentem a perda de líquidos.
No entanto, não é necessário forçar o consumo de litros e litros de água na tentativa de estimular a produção. Ingerir uma quantidade muito superior às necessidades do organismo não provoca, por si só, um aumento da oferta de leite.
A hidratação adequada ajuda o corpo a desempenhar suas funções. O excesso, porém, não substitui a retirada frequente e eficiente do leite.
E os chás para aumentar o leite?
Chás e plantas utilizados como supostos estimulantes da lactação também exigem cautela.
Erva-doce, funcho e feno-grego estão entre os exemplos tradicionalmente associados ao aumento do leite. Entretanto, o fato de um produto ser natural não significa que ele seja automaticamente seguro ou eficaz durante a amamentação.
A concentração dos compostos ativos pode variar conforme a planta, o modo de preparo, a quantidade consumida e a procedência do produto. Também podem existir contraindicações, interações com medicamentos e efeitos adversos.
Além disso, a evidência científica sobre muitos desses produtos ainda é limitada.
Por isso, não é recomendável utilizar chás, cápsulas, extratos ou suplementos com a finalidade de aumentar a produção de leite sem avaliação e orientação de um profissional habilitado.
A alimentação da mãe importa?
Sim, e muito — mas de uma forma diferente daquela sugerida pelos mitos.
A produção de leite aumenta as necessidades de energia e nutrientes da mulher. Por isso, a alimentação durante esse período deve ser suficiente e variada, respeitando a rotina, as necessidades individuais, as condições de saúde e as preferências alimentares da mãe.
Uma alimentação adequada pode incluir:
- frutas, verduras e legumes;
- arroz, aveia, pães, massas, cereais e tubérculos;
- feijão, lentilha, grão-de-bico e outras leguminosas;
- carnes, peixes e ovos;
- leite e derivados, quando consumidos;
- sementes, castanhas, azeite e outras fontes de gorduras;
- diferentes fontes de proteínas;
- água e outros líquidos adequados à rotina.
Não é necessário organizar toda a alimentação em torno de produtos considerados lactogênicos. Quanto mais equilibrada e variada for a rotina alimentar, maior será a possibilidade de atender às necessidades nutricionais da mulher durante a lactação.
Jordana Lessa reforça:
Mais importante do que procurar um alimento milagroso é garantir que a mãe esteja se alimentando de forma suficiente e variada. A produção de leite exige energia e nutrientes, então restrições alimentares desnecessárias podem ser muito mais preocupantes do que deixar de consumir algum suposto alimento lactogênico.
Dietas excessivamente restritivas, especialmente quando realizadas sem acompanhamento, podem aumentar o cansaço, dificultar a ingestão adequada de nutrientes e tornar esse período ainda mais desafiador.
Restringir alimentos aumenta a qualidade do leite?
Outro comportamento comum durante a amamentação é retirar diferentes alimentos da dieta por medo de que eles provoquem desconfortos no bebê.
Porém, restrições alimentares preventivas e sem indicação podem tornar a alimentação materna desnecessariamente limitada.
A exclusão de um alimento ou grupo alimentar deve ser avaliada de maneira individualizada, especialmente quando existe suspeita de alergia ou outra condição clínica. Nesses casos, é importante procurar orientação profissional antes de fazer mudanças significativas na alimentação.
O objetivo não deve ser construir uma lista extensa de proibições, mas garantir que mãe e bebê recebam o acompanhamento necessário diante de sintomas ou dificuldades.
E se a mãe realmente estiver produzindo pouco leite?
A baixa produção de leite merece investigação.
Quando existe uma suspeita real, é necessário avaliar a amamentação como um todo. A solução nem sempre estará em um alimento e também não deve ser buscada por meio de receitas ou medicamentos utilizados por conta própria.
Alguns sinais relacionados à alimentação e ao desenvolvimento do bebê precisam ser acompanhados por profissionais de saúde, especialmente quando há preocupação com ganho de peso, sucção, frequência das mamadas ou quantidade de fraldas molhadas.
Nessas situações, a família pode buscar apoio de:
- pediatra;
- nutricionista;
- consultor ou profissional capacitado em amamentação;
- equipe da atenção básica;
- Banco de Leite Humano.
Em alguns casos específicos, medicamentos ou outros recursos podem ser considerados, mas essa decisão deve ser tomada por profissionais habilitados depois de avaliar a causa da dificuldade.
O que realmente merece atenção durante a amamentação?
Quando o assunto é produção de leite, o conjunto importa mais do que um ingrediente isolado.
Os principais pontos de atenção são:
- amamentação frequente e eficaz;
- pega e posicionamento adequados;
- retirada suficiente do leite;
- ordenha quando necessária;
- alimentação materna suficiente e variada;
- hidratação adequada;
- descanso e recuperação sempre que possível;
- apoio à mulher que amamenta;
- acompanhamento profissional diante de dificuldades.
Não existe alimento milagroso para produzir mais leite
Canjica, aveia, leite e outros alimentos podem fazer parte de uma alimentação equilibrada durante a amamentação. O que não existe é a garantia de que um deles, isoladamente, fará a produção aumentar.
Cerveja preta também não deve ser utilizada com essa finalidade, e chás ou suplementos exigem avaliação profissional.
A principal mensagem é que alimentar adequadamente a mãe importa, mas a produção de leite depende, sobretudo, da retirada frequente e eficaz.
Mais do que procurar uma solução milagrosa no prato, é preciso cuidar da mãe, do bebê e do processo de amamentação como um todo.
Essa talvez seja uma das informações mais importantes do Agosto Dourado: diante de dificuldades com a produção, a resposta nem sempre está em comer mais aveia, beber mais água ou seguir uma receita tradicional. Muitas vezes, ela está na avaliação e no manejo adequado da amamentação.
Fonte técnica: Jordana Lessa, nutricionista.