Agosto é marcado pelo Agosto Dourado, campanha dedicada à conscientização, proteção e incentivo ao aleitamento materno. O período também abre espaço para esclarecer dúvidas que fazem parte da rotina de muitas mulheres durante a amamentação.
Entre elas está uma questão especialmente comum para quem deseja retomar uma rotina mais ativa depois do nascimento do bebê: praticar exercício físico durante a amamentação pode diminuir a produção de leite?
De forma geral, não.
A prática adequada de atividade física não reduz a produção de leite materno quando está associada a uma alimentação e hidratação compatíveis com as necessidades da mulher. O cuidado está em compreender que o período pós-parto possui demandas próprias e que a retomada dos exercícios precisa respeitar a recuperação e as condições individuais.

exercício físico e amamentação
De onde surgiu o medo de treinar durante a amamentação?
Durante muito tempo, algumas mulheres foram orientadas a evitar exercícios enquanto amamentavam por receio de que o esforço físico pudesse alterar o leite ou diminuir sua produção.
Uma das possíveis origens dessa preocupação está na associação entre exercícios intensos, aumento do gasto energético, desidratação e possíveis alterações na lactação.
Mas é importante separar essas situações.
O exercício isoladamente não é o principal problema. O que merece atenção é a combinação de fatores como restrição alimentar excessiva, baixa ingestão de líquidos, recuperação inadequada e redução das mamadas ou das sessões de ordenha.
A nutricionista Jordana Lessa explica que o organismo da mulher já possui uma demanda energética importante durante a lactação.
A mulher que está amamentando pode, sim, praticar exercício. O cuidado está em não transformar o exercício em mais uma fonte de déficit energético ou de privação para um organismo que já está trabalhando bastante para produzir leite.
O que realmente determina a produção de leite?
Para entender a relação entre exercício e amamentação, primeiro é necessário compreender como funciona a lactação.
A produção do leite materno ocorre principalmente por um mecanismo de oferta e demanda.
Quanto mais o bebê mama, ou quanto mais leite é retirado por meio da ordenha, maior é o estímulo recebido pelo organismo para continuar produzindo.
Por isso, quando uma mãe percebe uma possível redução na quantidade de leite, é importante analisar todo o contexto antes de atribuir a mudança exclusivamente ao exercício.
Alguns fatores podem interferir na manutenção da produção, como:
- redução da frequência das mamadas;
- longos períodos sem amamentar ou realizar a ordenha;
- dificuldades na pega;
- introdução de complemento sem compensação adequada da retirada de leite;
- estresse e mudanças importantes na rotina;
- alimentação insuficiente;
- desidratação;
- privação de sono e recuperação inadequada;
- determinadas condições de saúde e uso de medicamentos.
Especialmente nos primeiros dias e semanas de vida, a frequência das mamadas desempenha papel importante nesse processo.
O Ministério da Saúde recomenda o aleitamento materno em livre demanda, permitindo que o bebê seja amamentado conforme seus sinais de fome, sem a necessidade de horários rígidos.
Portanto, não é o treino, isoladamente, que determina quanto leite será produzido.
Posso voltar a treinar enquanto estou amamentando?
Na maioria dos casos, sim, desde que a recuperação do parto seja respeitada e a retomada aconteça de acordo com as orientações dos profissionais de saúde que acompanham a mulher.
Não existe uma regra única que possa ser aplicada a todas as mães.
É necessário considerar fatores como:
- tipo de parto;
- possíveis complicações;
- processo de cicatrização;
- condição do assoalho pélvico;
- nível de condicionamento físico;
- resposta individual do organismo à atividade.
Caminhadas, exercícios de fortalecimento, atividades de mobilidade e outras modalidades podem ser incorporados progressivamente à rotina pós-parto conforme a condição individual.
Além dos benefícios físicos, a atividade física também pode contribuir para diferentes aspectos do bem-estar e da saúde materna.
Exercício intenso pode alterar o leite materno?
Essa é outra dúvida frequente.
Exercícios muito intensos podem provocar alterações temporárias em alguns componentes do organismo. Isso, porém, não significa automaticamente que o leite tenha se tornado inadequado para o bebê ou que sua produção tenha sido prejudicada.
Uma das questões frequentemente mencionadas é o aumento do ácido lático após atividades intensas.
Essa alteração não significa que a mãe precise interromper a amamentação depois de se exercitar.
Mais importante é observar a resposta individual ao esforço e evitar excessos, especialmente durante o período em que o organismo ainda está se recuperando do parto.
Hidratação merece atenção redobrada
A hidratação já é importante para qualquer pessoa fisicamente ativa. Durante a amamentação, ela ganha ainda mais relevância.
A produção de leite aumenta as necessidades hídricas da mulher e, durante os exercícios, também existe perda de líquidos pelo suor.
Por isso, mães que amamentam e praticam atividade física devem prestar atenção à ingestão de líquidos ao longo do dia.
Isso não significa, entretanto, que seja necessário consumir quantidades exageradas de água na tentativa de aumentar a produção de leite.
Beber água muito além das necessidades do organismo não significa necessariamente produzir mais leite.
Uma estratégia simples é manter água disponível durante o dia, atender aos sinais de sede e aumentar a atenção à hidratação em períodos de maior calor ou quando os exercícios forem mais prolongados e provocarem maior sudorese.
Alimentação também precisa acompanhar essa nova demanda
Se o exercício não diminui diretamente a produção de leite, por que algumas mulheres percebem mudanças depois que voltam a treinar?
Uma das possibilidades está na alteração da própria rotina alimentar.
A amamentação já representa uma demanda energética relevante para o organismo. Quando a mulher acrescenta exercícios frequentes e, simultaneamente, reduz de maneira significativa a alimentação na tentativa de perder rapidamente o peso adquirido durante a gestação, pode acabar criando um déficit energético excessivo.
Por isso, o período pós-parto exige atenção especial à qualidade e à quantidade da alimentação.
A prioridade deve ser fornecer energia e nutrientes suficientes para atender às necessidades maternas, à recuperação, à rotina de exercícios e à própria lactação.
Estratégias para perda de peso durante esse período devem ser individualizadas e conduzidas com acompanhamento profissional, evitando dietas excessivamente restritivas.
Como conciliar exercício e amamentação?
Alguns cuidados podem tornar essa rotina mais confortável e segura.
1. Escolha um horário que funcione para você e para o bebê
Não existe um horário universalmente melhor para se exercitar.
Algumas mulheres se sentem mais confortáveis amamentando antes do treino. Outras conseguem organizar melhor a atividade depois de uma mamada.
O mais importante é encontrar uma dinâmica compatível com a rotina individual.
2. Evite períodos excessivamente longos sem retirar leite
Se o horário do exercício coincidir com um período em que o bebê normalmente mamaria, pode ser necessário reorganizar a rotina ou realizar a ordenha.
A retirada regular do leite ajuda a manter o estímulo necessário à produção.
3. Mantenha uma hidratação adequada
Atenção especial deve ser dada aos dias quentes e aos exercícios mais prolongados ou que provoquem maior transpiração.
4. Evite restrições alimentares exageradas
Cortar drasticamente calorias ou determinados grupos alimentares sem orientação profissional pode dificultar o atendimento às demandas energéticas desse período.
5. Observe os sinais do seu corpo
Cansaço excessivo, tontura, fraqueza, queda importante no desempenho ou dificuldade de recuperação merecem atenção.
O exercício precisa fazer parte do cuidado com a saúde, e não representar mais uma sobrecarga.
6. Procure ajuda diante de uma suspeita de baixa produção
Quando houver preocupação real com a produção de leite, a situação deve ser analisada de maneira mais ampla.
Dificuldade para ganhar peso adequadamente, problemas durante as mamadas ou outras alterações relacionadas à alimentação do bebê precisam ser avaliadas por profissionais habilitados.
A percepção de que as mamas estão mais vazias, isoladamente, não deve ser utilizada como único parâmetro para determinar uma redução da produção.
Afinal, exercício físico diminui a produção de leite?
Para a maioria das mulheres, a prática adequada de atividade física não diminui a produção de leite nem compromete sua qualidade.
O ponto central está em observar o conjunto.
Frequência das mamadas, retirada de leite, alimentação, hidratação, descanso, recuperação pós-parto, intensidade dos exercícios e necessidades individuais fazem parte dessa equação.
Amamentar não precisa significar abandonar a atividade física. Da mesma forma, retomar os exercícios não significa abrir mão da amamentação.
Com informação, acompanhamento adequado e respeito ao próprio processo de recuperação, as duas práticas podem coexistir.
Fonte técnica: Jordana Lessa, nutricionista.